Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Super-Homem kosher e Teologia do Corpo

Com o destino do mundo em perigo...
o Shabat vai ter de esperar!
“O nosso corpo foi feito para a comunhão”, quem o diz é um dos organizadores do simpósio sobre a Teologia do Corpo, que começou ontem em Fátima e termina no domingo.


A grande pergunta do dia é… Super-Homem era judeu? Há quem diga que sim. O nome é uma das pistas: Kal-El é parecido com “Voz de Deus” em hebraico.


O Papa Francisco encontrou-se hoje com o Arcebispo de Cantuária. Consideram-se aliados nas causas da família, entre outras coisas.


O Nosso Corpo Foi Feito para a Comunhão

A criação de Eva
Transcrição integral da entrevista feita ao padre Miguel Pereira e a Maria José Vilaça, a propósito do IV Simpósio sobre Teologia do Corpo, que se está a realizar em Fátima. A notícia encontra-se aqui.

Como é que surgiu a ideia de organizar este simpósio?
Maria José Vilaça: Desde 2003, quando esteve cá o Christopher West, começámos a acompanhar a Teologia do Corpo e a deixarmo-nos fascinar por tudo isto e começámos a ir aos simpósios internacionais na Europa, Áustria 2007 e Irlanda 2009. Desde aí surgiu a ideia de fazer um em Fátima, curiosamente os estrangeiros que lá estavam, incluindo muitos americanos e sul-americanos, vieram pedir para fazermos em Fátima.

Não é organizada só por nós, conta com a participação do professor Peter Colosi, professor de Filosofia no Seminário de São Carlos Borromeu, em Filadélfia, e ele coordena isto com uma organização local.

Padre Miguel: Somos mais ou menos 12 pessoas em Portugal, sempre em contacto com o Peter Colosi e fazemos essa ligação com ele, vamos informando-o sobre o que acontece localmente, para ele ir dinamizando até em relação a recolha de fundos.

A Teologia do Corpo, para quem não conhece, o que é?
Padre Miguel: O Papa João Paulo II esteve na comissão que redigiu o primeiro esboço da encíclica “Humanae Vitae”. Foi uma encíclica muito complicada e de difícil acolhimento porque pedia uma grande conversão. A encíclica foi promulgada por Paulo VI em 1968, depois de uma viagem que fez a Fátima, e falava especialmente dos temas relacionados com a vida, sobretudo aborto, contracepção, relações sexuais, estamos a falar do âmbito da intimidade conjugal. E como pedia aí uma grande atenção e que demorássemos ali algum tempo, não foi muito bem acolhida.

O Papa João Paulo II esteve na comissão que redigiu o primeiro esboço do Humane Vitae, e ficou ali com um bichinho. O Papa Paulo VI dizia que para entender o texto tinha de se conceber uma antropologia adequada, uma maneira cristã de conceber o homem, capaz de dizer as razões do proceder. Foi nesse texto que o Papa trabalhou desde 68 a 79. Em 79, já Papa, ele queria ter editado o livro, mas como foi eleito Papa disseram-lhe que não podia publicar sem ser magistério. Então, o Papa João Paulo II dividiu o livro em 169 catequeses, mais seis sobre o Cântico dos Cânticos. A partir da palavra de Deus e a partir da filosofia personalista e da fenomenologia ele compõe uma maneira de ver o mundo que torna possível não só entender mas passar a viver uma experiência diferente na nossa intimidade. Isto é assim o básico da história.

Em relação ao conteúdo das catequeses, o Papa faz uma catequese bíblica, ou seja pega em várias passagens da Sagrada Escritura para explicar o que é o homem. Primeiro, no princípio o que Deus quis para o homem, porque Deus diz que criou o homem à sua imagem e semelhança, e quando procuramos a imagem e semelhança de Deus em cada um de nós procuramos normalmente na nossa alma, nas coisas que nos chamam para o belo, o eterno, o bom, o verdadeiro. Muito ao género do que é mais espiritual.

Mas o Papa diz que não só no Espírito mas também no corpo Deus deixou marcas daquilo que é. É importante perceber, se Deus é comunhão, as marcas que Deus deixa no nosso ser são sempre marcas de comunhão. Quando Deus cria, cria-os homem e mulher. Deus diz “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, depois diz “Assim aconteceu. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Homem e mulher os criou”. E podemos questionar-nos, porquê homem e mulher? Porque não criou só um, fantástico? Porque é que criou dois? E dois que na sua sexualidade se complementam, dois que são feitos na relação um com o outro? A marca de Deus é este sinal da relação, feita não apenas a nível mental, psicológico e espiritual, mas também a nível do corpo.

Se isto é assim quer dizer que o nosso corpo é feito para a comunhão, que também o nosso corpo foi feito para tocar o mistério de Deus, da Santíssima Trindade. E se é assim a nossa vida precisa de dar uma volta. Se o nosso corpo foi feito para amar a Deus e só para isso, é importante que todos os nossos gestos falem de amor, e também a nossa sexualidade.

O Papa diz que a relação sexual é o lugar da maior intimidade, onde as pessoas se entregam mais, porque entregam não só o seu pensar, não contam apenas as suas ideias, entregam-se a si próprias. Depois de me entregar na relação sexual que tenho com o meu cônjuge não há mais nada a entregar, porque já entreguei o meu corpo, é por isso que também existem tantas feridas, em tantos e tantos casais, que não se respeitaram nessa entrega. Porque sendo esse um lugar para chegar tão alto ao amor de Deus, se em vez de amarmos utilizarmos as pessoas também se desce muito fundo, deixam-se marcas muito profundas.

O Papa tinha este conhecimento porque antes de ser Papa, em Cracóvia, primeiro como padre e depois como cardeal, fez uma experiência muito importante, a que ele chamava a rede, um género de equipas de casais com quem falava, às vezes até individualmente. Ele tinha um profundo conhecimento da vida de cada um daqueles, não como quem vive a experiência, mas como quem sabe, como quem vê de fora mas percebe muitas vezes porque como nós estamos tão dentro das relações que não conseguimos ter um olhar claro sobre elas, mas o Papa conseguia tê-lo.

Tobias e Sara
A sociedade em geral tende a pensar que a Igreja tem um olhar negativo e pessimista sobre a sexualidade, mas aqui vemos um discurso completamente diferente do estereótipo…
As pessoas ficam muito admiradas quando falamos da Teologia do Corpo e da maneira que a sua sexualidade foi feita para chegarem tão alto, muitas vezes foram instruídas de forma a privilegiar o espiritual e a descurar o seu corpo. Mas é o próprio São Paulo que diz que o nosso corpo é templo do Espírito Santo. Se o próprio Espírito Santo pode habitar no nosso corpo é porque de certeza que é uma coisa boa. Hoje em dia as pessoas precisam muito disso, de saber que o seu corpo é o maior tesouro que têm, e é por isso que devem respeitá-lo imenso. Quando a Igreja diz que devemos cobrir o corpo e vestir-nos dignamente, não expormos muito o nosso corpo porque pode ser olhado indignamente, não é porque diga que o corpo é mau, pelo contrário, diz que o corpo é muito bom e se tens um tesouro não o dês a qualquer um, dá-o a quem o possa respeitar verdadeiramente.

Apesar de o Papa falar mais para os casais isto tudo implica uma nova forma de ver. Com os meus amigos, com os meus familiares, com os meus filhos, os meus gestos são chamados a ser outra coisa, a ter outro peso. As pessoas ficam surpreendidas porque vêem que afinal toda a sua vida foi feita para ter um peso diferente, uma glória diferente.

Consta que Jesus um dia falou directamente à Madre Teresa de Calcutá e disse “Quero que tu vás onde sem ti eu não consigo ir”. Isto significa que cada vez que estou num lugar estou não só em nome de Deus, mas nos meus gestos aqueles a quem eu amo provam o próprio Deus. Isso é absolutamente extraordinário.

Quando falamos só da sexualidade falamos principalmente daquele que é o maior acto de amor, a maior possibilidade de entrega da vida. Aqui é importante, e o Papa fala disso, que a entrega seja total. Não só do meu corpo, mas também do meu espírito, não só do meu espírito mas também do meu corpo.

Quando isto toca a relação conjugal toca o lugar da maior entrega. Porque no dia do meu casamento eu digo que sou todo teu para o resto da vida e a minha vida vai girar à volta da tua, na presença de Deus, porque eu quero o teu bem. Hoje em dia reduzimos muitas vezes o amor a um sentimento, mas isso não é a verdade toda, o amor é sobretudo uma vontade, a vontade de querer bem ao outro, que implica um gostar, um sentir, este impulso de querer o outro, de querer o bem dele.

Hoje em dia o que acontece muito nos casais é que em vez de se amarem usam-se muito. E o Papa apercebeu-se disso.

Que temas vão ser abordados neste simpósio?
Maria José: Tivemos o cuidado de tornar isto um bocadinho teórico e muito prático. Embora se chame um simpósio de Teologia não é uma coisa inalcançável. No primeiro dia vamos ter uma apresentação sobre a relação da Teologia do Corpo com Fátima. Não só pela questão do Papa Paulo VI ter vindo a Fátima antes de publicar a Humanae Vitae, mas por toda a ligação que João Paulo II estabeleceu, que nos permite concluir que sem Nossa Senhora de Fátima não teria havido Teologia do Corpo, porque o Papa sofreu um atentado no dia 13 de Maio, precisamente o dia em que ia lançar a fundação do Instituto João Paulo II, cujo objectivo é ensinar a teologia do corpo e aprofundar estes temas.

Depois vamos ter um segundo dia em que a maior parte das nossas comunicações vão ser sobre o que é a Teologia do Corpo, portanto vamos ter uma vertente mais académica mas com pessoas com experiência muito grande em falar destes temas, tornando-as mais perceptíveis. A experiência que eu tenho de os ouvir é de repente perceber que a nossa vida vai ter de mudar, isto é tudo tão bonito, Deus gosta de nós de tal maneira, que isto só pode provocar uma mudança na nossa vida.

No fim deste dia de Sexta-feira vamos ter já uma passagem para a parte mais prática, como é que isto se aplica, como é que se vive, e a experiência que as pessoas têm no seu próprio trabalho. Vamos abordar a pornografia, a ausência de pai na sociedade ocidental, um dos dramas com que nos deparamos, vamos ter pessoas a falar sobre a terapia conjugal e como é que a Teologia do Corpo ajuda nisto, vamos ter oradores, já no Sábado, a falar da homossexualidade e da complementaridade entre homem e mulher e depois, no Domingo, vamos ter pessoas de África para falar da experiência da teologia do corpo em África, porque lá acolheram melhor e muito mais rapidamente a teologia do corpo do que na Europa, o que terá a ver com a pureza do coração e a abertura de espírito das pessoas. Convidámos duas pessoas que nos vêm falar dessa experiência e vamos ainda ter uma apresentação sobre a NaProTechnology, que muito pouca gente conhece em Portugal, mas que é uma alternativa à procriação medicamente assistida, chamada NaPro Technology. Vem cá um professor Phil Boyle que vem falar de um estudo que fez com 400 casais que passaram pela procriação medicamente assistida e não tiveram sucesso e que teve consequências complicadas na vida deles, ele vem-nos dar o resultado desta investigação depois de ter usado esta “Natural Procreation Technology”.

No Domingo o tema era a teologia do corpo e a nova evangelização e vamos ter abordagens que nos remetem para a essência do que é a nossa ligação com Deus e vida de comunhão com Deus porque é daí que tudo parte.

Há muitas inscrições?
Pe. Miguel: Está a correr tão bem como esperávamos, ligeiramente acima. Pensava que não íamos ter mais de 120 inscrições, mas como os portugueses se inscrevem sempre em cima da hora, vamos agora com 210. Temos tido muita gente a querer nos ajudar generosamente.

Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Papa a andar de mota?

Será que Francisco também
vai receber um destes?
O Papa Francisco hoje surpreendeu e recebeu um presente. Primeiro meteu a multidão a entoar com ele: “Deus é mais forte que o mal”, e no fim da audiência-geral recebeu… duas Harley Davidson.

Morreu ontem à noite, em Espanha, a freira que detinha o recorde de clausura. Teresita tinha 105 anos e 86 de mosteiro.



O Direito ao Erro e a Morte da Tolerância

“Well, George Lewis told the Englishman, the Italian and the Jew
«You can’t open your mind, boys
To every conceivable point of view»”
Bob  Dylan, High Water (For Charley Patton)


Há vários anos fui convidado para participar num programa de rádio para discutir um dos meus livros. Nem me lembro qual, mas recordo-me perfeitamente de um diálogo com um ouvinte que ligou. Ele estava claramente irritado pelo facto de eu estar a dar argumentos a favor da inviolabilidade da vida humana nascitura e de estar a explicar, detalhadamente, por que razão acreditava que um ser humano não nascido tem uma natureza pessoal e que o aborto é um homicídio sem justificação.

Depois de alguma conversa de circunstância e de eu ter respondido à sua questão sobre a personalidade humana, o ouvinte declarou, claramente exasperado: “Dr. Beckwith, você é intolerante. Tem tanta certeza de que está certo e que todos os outros estão errados.” Para alguém como eu que gosta de brincar com questões filosóficas este tipo de declaração é boa de mais para ser verdade. É o tipo de cliché mal pensado que tem ajudado a manter o meu livro “Relativism: Feet Firmly Planted in Mid-Air”, escrito com Gregory P. Koukl, nas livrarias há 15 anos.

Respondi fazendo ao ouvinte a seguinte pergunta: “Estou errado ao pensar assim?” Esta é uma resposta interrogativa que tanto eu como o Greg já usámos inúmeras vezes, e que já partilhámos com o público em muitas conferências. O ouvinte respondeu: “Sim”. Pelo que eu disse: “Então você é exactamente igual a mim. Você pensa que tem razão, e que eu estou errado. A diferença é que eu admito que algo é verdade. Você, por outro lado, acredita que algo é verdade, mas age como se não acreditasse”.

Então ele tentou dizer a mesma coisa de outra maneira, mas passava o tempo a tropeçar. Não o conseguia dizer sem entrar em contradição. A dada altura confessou: “Não consigo dizer o que quero dizer sem parecer ridículo”. Respondi: “Isso é porque o que está a tentar dizer é ridículo”.

Reparem que o ouvinte ignorou simplesmente a substância do meu caso, embora isso não me tenha surpreendido. A maioria das pessoas com quem me cruzo, mesmo aquelas que tiraram licenciaturas de instituições de elite, não se preocupa muito com argumentos, apesar de se definirem como campeões da “razão” e inimigos da “superstição religiosa”.

Claro que também afirmam ser defensoras da “diversidade” e do “multiculturalismo” ao mesmo tempo que consideram que todas as instituições, tanto públicas como privadas, devam parecer idênticas na sua composição étnica e de género, bem como nas suas posições fundamentais sobre a sexualidade humana, o conhecimento e o papel do Estado.



É por isso que a recusa da Igreja Católica em mudar o seu ponto de vista sobre o sacerdócio masculino, o casamento, a sacralidade da vida, contracepção e a instrumentalização da reprodução é confrontada com histeria e não com um apelo à defesa das contribuições distintivas que o Catolicismo introduz na nossa sociedade multicultural.

Uma vez que os críticos da Igreja confundem antropologia com cosmetologia, acabam por apelar à conformidade forçada, travestida de diversidade. O que a muitos de nós parece uma hostil exigência de hegemonia liberal, eles dizem ser apenas um convite a alegrarmo-nos no pluralismo.

A minha conversa com aquele ouvinte é um microcosmo desta incoerência. A maioria das pessoas com tendências liberais, tal como este ouvinte, invocam muitas vezes a “tolerância” sem se aperceberem verdadeiramente do que isso implica numa democracia liberal como a nossa.

Se a tolerância é uma virtude cívica, então implica que reconheçamos que aqueles com quem discordamos estão errados. Porque quando eu e outro cidadão estão de acordo não nos estamos a tolerar, estamos de acordo. Porém, ironicamente, muitos na nossa sociedade pensam que o facto de considerar que alguém está errado é em si um acto de intolerância.

Sob esta definição de tolerância o estar de acordo, em vez de estar em desacordo, é que se torna uma condição necessária para a tolerância. Neste caso a tolerância fica de pernas para o ar e torna-se, paradoxalmente, intolerância.

Muitos dos meus amigos liberais, tal como o ouvinte, dizem que devemos ser cépticos em relação à confiança que depositamos nos nossos juízos relativos a assuntos sobre os quais pessoas razoáveis podem discordar. Mas é precisamente em relação a alguns desses assuntos que os seus amigos são mais impiedosos, punitivos e prontos a fazer juízos de valor. Parecem dispostos, ironicamente, a copiar precisamente o tipo de dogmatismo e fechamento mental que apontam de forma pejorativa aos “fundamentalistas cristãos”. Defendendo, embora, a rejeição de instituições e formas de vida que excluem quem é diferente, não praticam o que pregam e, na prática, fazem questão de excluir todos os que pensam de forma diferente da oficial.

A tolerância não pode ser infinitamente elástica. Tanto liberais como conservadores estão de acordo a este respeito. Mas se em questões fracturantes, para as quais o liberalismo foi inventado para fornecer um modus vivendi, a tolerância não pode ser aplicada de forma coerente, então chegámos ao ponto em que o liberalismo abraçou aquilo que, em tempos, afirmava rejeitar: “Não existe o direito ao erro”.

Se assim é, então a tolerância morreu.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 7 de Junho 2013 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

Lobby gay no Vaticano e turcos descontentes

O Papa reconheceu a existência de um lobby gay no Vaticano? De acordo com uma alegada transcrição de um encontro do Papa com representantes de ordens religiosas na América Latina, sim… por enquanto é só diz-que-disse, aguarda-se comentário da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Os turcos, provavelmente ocupados com problemas domésticos, demoraram, mas responderam. E não estão contentes com o facto de o Papa ter dito que o massacre de arménios foi um genocídio.

Cabo Verde vai ser o primeiro país da África Ocidental a celebrar uma concordata com a Santa Sé. Temos aqui entrevista com o bispo D. Ildo Fortes.

Começa hoje uma exposição solidária para angariar dinheiro para o Convento dos Cardaes. Saiba tudo aqui.

Ontem foi dia de Portugal. Octávio dos Santos considera que não devia ter sido e queixa-se ainda que o “Cristianismo está sob ataque de um politicamente correcto totalitarista”, pode ler a transcrição completa desta entrevista no blogue, como de costume.

“Cristianismo está sob ataque de um politicamente correcto totalitarista”

Transcrição integral da entrevista feita a Octávio dos Santos. A notícia completa pode ser lida aqui.


Temos aqui uma colecção de ideias e propostas, uma grande preocupação sobre Portugal. De onde vem esta preocupação?
Não sei ao certo de onde vem, mas sei que vem de há muito tempo. Aliás o primeiro texto do livro, que é como o início oficioso do mesmo, porque eu só comecei a pronunciar-me sobre a realidade portuguesa em 1985/1986, mas há um texto de 1975/76.

Claro que eu era muito novo ainda quando foi o 25 de Abril e o PREC e eu via tudo a passar-se à minha volta e sentia e os meus pais explicavam, que o país estava a passar por grandes transformações. Com o decorrer dos anos fui formulando a minha personalidade, vendo o que se passava e senti a necessidade de exprimir o que pensava, o que deveria ser diferente, o que devia ser melhorado. Os anos foram passando, os protagonistas também, mas eu sentia que muitos dos problemas continuavam por resolver, alguns até se iam agravando.

Para si grande parte destes problemas têm as suas raízes há mais de um século…
Sem dúvida alguma. A instauração da República. O meu processo de maturação política e do meu pensamento levou tempo. Vamos conhecendo a história, falando com as pessoas, conhecendo aspectos que não são divulgados, propositadamente. Passado pouco tempo pude descobrir, como qualquer pessoa pode, que antes da implantação da república havia um regime que, longe de ser perfeito, tinha qualidades e estava em consonância com o que se passava noutros países da Europa da altura. Havia liberdade de expressão, foi a época da geração de 70 em que Eça e todos os seus contemporâneos puderam exprimir-se, desenvolver-se. Rafael Bordalo Pinheiro, houve progresso material, Fontes Pereira de Mello, e não só.

O que é certo é que a implantação da República, ao contrário do que muitos apregoaram e as comemorações do Centenário da República há três anos pretendeu inculcar essa ideia, que é falsa, a implantação da República não foi uma melhoria, nem um progresso. Pelo contrário, foi um retrocesso. Portugal e os portugueses passaram a ter menos liberdades menor liberdade de expressão, e em termos económicos e sociais houve claramente uma degradação do Estado do país.

Não estamos aqui perante um incidente isolado que mudou o regime. Há aqui uma ideologia que condena também e que identifica com outros factores, como a introdução do “casamento” entre homossexuais, por exemplo…
Digamos que ao longo dos últimos anos tem-se visto a hipocrisia por parte de certos políticos. Por um lado incentiva-se que a população se pronuncie, mas ao mesmo tempo que se queixam que essa participação não se verifica, o que é certo é que em determinados assuntos que são fundamentais, polémicos e controversos, mas fundamentais, não é dada a oportunidade aos portugueses de se manifestarem, e este é apenas um exemplo.

Outro exemplo ainda mais absurdo e anedótico é o acordo ortográfico em que todo um fundamento basilar do país e da nossa identidade é posto em causa de forma inútil e absurda, imposta de cima para baixo, contra todos os pareceres, excepto os dos que elaboraram o dito acordo, e em que as vozes dissonantes, que representam mesmo a maioria da população são sistematicamente caladas.

Não há, ao contrário das grandes promessas que foi havendo ao longo dos tempos, sobretudo depois do 25 de Abril, não há uma transparência e uma relação de lealdade para com os cidadãos. O que é mais grave é que vozes de outras pessoas, como eu, que têm certas ideias, sentem-se e por vezes são mesmo postas de lado e não têm acesso tão fácil a certos meios para partilhar as suas ideias.

É monárquico, fala disso várias vezes, tem um percurso nesse sentido, incluindo a publicação da obra de ficção “A República Nunca Existiu”. Mas que monarquia é que quer, tendo em conta que muitas das monarquias europeias actuais também têm os escândalos e as medidas que tanto critica, como o “casamento” entre homossexuais, por exemplo.
Há que ver o que se passou, para já, na nossa história. O que se passa em Portugal é que a discussão entre república e monarquia não é, ou não deve ser, meramente teórica, porque já temos experiências concretas de uma e de outra, portanto dá para comparar. Depois, podemos estar atentos com o que se passa noutros países e aprender com os erros que se passam nesses países.

Claro que, para já, para um país como Portugal em que o grande problema não é só financeiro e económico, mas também de ânimo, psicológico, em que o país precisaria de um novo dinamismo e incentivo, de uma nova vontade para crescer e desenvolver-se, a crise não passa com esta classe política e com esta forma de dirigir o país em que o Presidente da República, seja quem for, acaba por se comportar, ou pelo menos é visto como tal, como um elemento de uma facção, porque aliás ele é sempre um elemento de uma facção. Ele nunca é eleito ou aclamado ou sufragado pela generalidade do povo português. Portanto para um país como Portugal, com a sua história e as suas características, a monarquia é, aliás já era e continua a ser, a melhor solução nesse aspecto. Mas como eu digo também, num artigo que encerra o meu livro “Um Novo Portugal”, a solução não passa simplesmente por alterar a chefia de Estado, teria de haver, idealmente, uma completa reformulação em muitas das instituições do país.

Tem aqui muitas críticas. Não falta um tom de esperança?
Digamos que já houve um período em que tive mais esperança do que tenho hoje. Na viragem do século, final dos anos 90, em que coincidiu aqueles anos da Expo 98, todo aquele movimento foi algo de espantoso que não se via há muito tempo, como a solidariedade com Timor. Naquela altura pensei, “bom, talvez estejamos no caminho certo”. Mas depois as coisas complicaram-se. Houve ali um dinamismo que não teve continuidade, não apenas por questões políticas.

Eu não tenho dúvidas que homens e mulheres de qualidade possam existir na esquerda e na direita, embora eu não me considere nem uma coisa nem outra, mas o que é certo é que se os dados estão viciados à partida, se as instituições e o modo de funcionamento já mostraram que não são os adequados, é difícil as pessoas, por maiores que sejam as qualidades, consigam alterar o estado de coisas, esse funcionamento.

Não tenho motivos de esperança quando, por causa desta crise que estamos a atravessar, que nunca é demais recordar é da inteira responsabilidade do anterior primeiro-ministro, torna-se difícil quando vemos tanta das nossas capacidades, nomeadamente através dos nossos concidadãos, desistirem ao ir para o estrangeiro, ou até ficando cá e desistindo de participar e dar o seu contributo porque não têm incentivos para isso, porque sentem coarctados os seus esforços.

Tem também textos sobre a regionalização, um debate que se vai reacendendo. Contrapõe com o municipalismo. O que é esse conceito, e de que modo é melhor que a regionalização?
Tem longas tradições. Aliás isso é algo que distingue Portugal na sua história de outros países. Tenho dúvidas que Portugal tenha passado por um regime feudal. Portugal nasceu por causa de uma personalidade de um rei forte. D. Afonso Henriques tinha uma personalidade fortíssima e o certo é que sempre que na história o rei de Portugal não foi forte, o país ressentiu-se. Portanto havia nobres com importantes papéis e contributos, prestígio e influência, mas o crescimento de Portugal passou muito por dar voz e autonomia, pelos forais, às populações e aos concelhos.

Por isso, apesar dos muitos abusos que se verificaram, creio que o contributo do poder local acabou por ser mais positivo que negativo, embora sem dúvida com alguns defeitos. Mas caramba, não vamos esperar que todas as pessoas sejam perfeitas e é por isso que devia existir, por um lado, um sistema de justiça que funcione, atento, eficaz. Não o temos tido. Uma comunicação social atenta, que até certo ponto faz isso, que denuncia, que informa, que alerta. Portanto nesse nível como em todos tudo passa por cada um de nós, individualmente, ou integrados nas organizações em que estamos integrados, darem o seu contributo e esforçarem-se por fazer o seu melhor, não se conformarem, mas na situação em que estamos é difícil a pessoa não se sentir um bocado desalentada.

Estamos a chegar ao dia 10 de Junho. O Octávio considera que esse não devia ser o dia de Portugal. Porquê, e que alternativa propõe?
Pura e simplesmente 10 de Junho começa por ser o dia de Camões. É talvez a única data que podemos associar a Camões, mas é a data da morte dele.

Aquilo que me parece incongruente é que o dia de Portugal, em que devíamos celebrar a nossa existência, enquanto nação independente, seja para já a data da morte de um poeta, do nosso maior vulto literário, mas que é também a data em que Portugal perdeu a sua independência, em que a dinastia dos Felipes entra em Portugal e assume a liderança e os destinos do país.

Para mim não faz sentido que o dia de Portugal seja da época em que Portugal perdeu a sua independência. Outras datas haveria. Eu elenco-as, mas creio que o dia que melhor serviria seria o 14 de Agosto, da Batalha de Aljubarrota. Essa foi uma data a todos os níveis importante, em que Portugal reafirmou a sua independência, consolidou a dinastia de Avis, com tudo o que veio a proporcionar a seguir, a expansão, os descobrimentos.

Estranha-se, no seu livro, uma ausência de referências ao papel da religião na sociedade portuguesa…
Digamos que essa é uma questão complicada, faz parte da minha própria evolução pessoal. A religião está sempre presente, mesmo que seja de forma sub-reptícia, seja para mim, seja para os outros, mesmo que não queiram assumir. O livro é feito de artigos escritos e publicados em locais e anos diferentes, mas se isso não está claro quero que fique aqui, que é algo de que me orgulho, da tradição cristã portuguesa, que não deve ser posta em causa. É um debate que passa também pelo resto da Europa, em que o Cristianismo nas suas diferentes facetas parece estar sob ataque de um politicamente correcto que em alguns aspectos assume formas de verdadeiro totalitarismo.

Por isso, valores que são totalmente contra os nossos princípios de sociedade ocidental de tolerância e desenvolvimento acabam por surgir. Defender o Cristianismo, e não estou com isto a dizer que não deve haver tolerância para os outros, é um valor que deve ser preservado, se não na sua vertente religiosa, pelo menos na vertente social, de valores, de respeito pelo próximo, mas respeito sem permitir que aquilo que temos de melhor seja posto em causa.